30/07/2013

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Marcos Bagno - A Língua de Eulália


BAGNO, M. A Língua de Eulália: Novela Sociolinguística. Edição 15. São Paulo: Contexto, 2006. 242 p.

Marcos Bagno tem graduação em Letras (Bacharelado em Língua Portuguesa) pela Universidade Federal de Pernambuco (1991), mestrado em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco (1995) e doutorado em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (2000). Trabalha como professor-adjunto do departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB), atuando na área de Tradução Francês/Português.
A linguagem faz parte da humanidade desde os seus primórdios, trazendo consigo várias marcas que distinguem uma das outras e as mesmas entre si. Entretanto, a pluralidade linguística é um assunto oculto no sistema educacional brasileiro, mas o livro “A Língua de Eulália” traz à tona este assunto incômodo aos gramáticos tradicionalistas que lutam para a sobrevivência do português padrão. Dessa forma, o autor propõe a desmistificação da língua unitária, pois toda língua ativa tem diversas variações principalmente históricas, geográficas e socioculturais.
A narrativa inicia-se com as três jovens universitárias e professoras primárias (Vera, Silvia e Emília) que passam as férias no interior de São Paulo na casa da tia de Vera, a linguista Irene. O estopim do tema, no entanto, é o jeito diferente de falar de Eulália, pois foi alfabetizada tardiamente, utilizando diversas marcas do português não padrão no seu cotidiano. Com o objetivo de esclarecer tais lacunas entre os modos dos falantes de língua portuguesa, Irene resolvera dar um “curso intensivo” de variações linguísticas às estudantes.
            Inicialmente, a linguista esclarece as diversas formas faladas no Brasil, inclusive as variedades do português, porque a língua não é um “bloco compacto, sólido e firme [...]” (p. 19). Na verdade, há diferenças que cercam a língua portuguesa como: fonéticas, sintáticas, lexicais, semânticas e no uso da língua. Além disso, toda língua muda com o passar dos anos, impossibilitando uma pessoa que não seja especialista a decifrar escritos em português do século XII. Apesar de todas as variedades, o português padrão apenas utiliza a forma com a qual as elites das capitais financeiras brasileiras se expressam, marginalizando o português não padrão.
            O livro mostra claramente as semelhanças entre o português padrão (PP) e o português não padrão (PNP), evidenciando a curva natural da linguagem exercida pelo PNP, pois o PP atende as necessidades da elite e tem mudanças menos chamativas, mas, aos poucos, as marcas do português vulgar infiltram sutilmente a linguagem dos privilegiados. Entretanto, o PNP é comparado à linguagem antiga e às mudanças que ocorreram nas línguas de origem latina, trazendo fenômenos como o rotacismo, a eliminação da redundância dos plurais, condensação de alguns dígrafos, enxugamento das conjugações verbais, redução oral de ditongos em alguns casos, troca recíproca dos pronomes “mim” e “eu” e etc.
A personagem Irene, em sua metodologia, efetua comparações do português padrão e não padrão com a finalidade de esclarecer toda a aplicabilidade da língua pela população. A assimilação torna-se mais simples devido o assunto de cada “aula” estar separado por capítulos, e pela aula ser realizada de forma bastante criativa. Ela considera que há mais semelhanças na comparação entre o português padrão e o português não padrão do que desigualdades. A cada capítulo ela desvenda todos os mitos que envolvem a língua, de forma que as alunas captem o quanto o português é diverso em um único país, pois a mesma expõe que no Brasil há vários tipos de variedades do português.
O autor propõe uma nova abordagem educacional em relação ao ensino do português padrão, trazendo métodos que correspondem à situação brasileira, ou seja, ensinar a forma culta sem negar a existência das diversas formas e variedades que a língua possui. Dessa forma, os alunos de baixa renda, que possuem uma discrepância maior da língua padrão, não se sentiriam discriminados e encontrariam motivos para entender e utilizar quando necessário o rebuscado PP. Todas as mudanças citadas acima seriam revolucionárias e comprometeriam o trabalho dos gramáticos tradicionais, que têm o objetivo de estagnar a língua portuguesa e deixá-la menos acessível àqueles que não correspondem ao grau social adequado para compreender e utilizar a forma “correta” de se falar.
A obra trata de forma clara e simples, pois tem o objetivo de incluir as pessoas que falam português em suas diversas formas, exclusivamente aquelas que não utilizam a norma da elite. O livro possui uma linguagem simples e de fácil compreensão, a qual ilustra o uso da língua portuguesa em suas diversidades, empregando métodos para exemplificar toda a transformação da língua desde os seus primórdios.
Cômico, agradável, inteligente e sensível são algumas das características do livro “A Língua de Eulália” que traz ideias criativas e revolucionárias, onde o preconceito ocupa o lugar de retrógrado e chulo, porque as variedades linguísticas não são nem um pouco pobres ou qualquer adjetivo pejorativo que possa existir, tampouco faz com que o falante que ocupe a margem da sociedade tenha menos virtudes que o indivíduo que possua o português “impecável”. Entretanto, até as pessoas que se julgam mais cultas não conseguem atingir por completo a totalidade padrão da língua. Afinal, quem nunca soltou um “Pra mim fazer” ou um “Por causa que”? Logo ninguém está livre de “erros” por mais óbvios que pareçam ser.
O livro destina-se a todos que tenham interesse pela língua portuguesa, sobretudo os que queiram desmistificar o conceito de unicidade linguística. Também é destinado aos pesquisadores linguísticos, profissionais e estudantes da área da educação a fim de realizar uma reforma educacional nos métodos utilizados para ensinar a língua portuguesa, proporcionando um ensino de inclusão a todos os brasileiros de norte a sul do país.







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